12 de Fevereiro de 1967. Cumpriam-se 700 anos do Tratado de Badajoz que atribuiu a posse do Reino do Algarve ao Rei de Portugal, Afonso III pelo rei de Castela e Leão, Afonso X. Por ordem do Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, os mais reputados especialistas em arqueologia científica, acompanhados da PIDE analisam uma arca em forma pentagonal escondida no maior dos segredos numa cripta subterrânea na Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa.
A arca era uma embarcação em madeira de sobro da maior resistência e impericibidades então conhecidas. A custo, conseguiram abrir a embarcação sem danos de monta. A mesma tinha sido descoberta dias antes numa fenda aberta acidentalmente nas falésias de Sagres por mais um sismo habitual no Algarve. Perto da fortaleza do Beliche, entre a hoje Sagres e o cabo sagrado de São Vicente.

Um pescador humilde das redondezas, conhecedor daquelas paragens, foi despertado pela atenção à nova fenda e o que lá estava. Resistiu à tentação de se aproximar, pois a falésia oferecia muitos perigos de acesso. Foram, de imediato, alertadas as autoridades. O oculto, o que não se poderia dizer ou falar era imperativo na época.

Em segredo, o tumulo ou o que parecia sê-lo, foi levado para Lisboa. No maior dos cuidados. A arriba era instável e a operação de resgate foi perigosa. Nenhuma comunicação social ou população foi autorizada a aproximar-se. As autoridades fizeram longos cercos de segurança.
A abertura foi um momento insólito. Restos de um cadáver deitado em pose cerimonial. Uma espada em ferro bem conservada no centro do féretro por cima deste. Os ossos das mãos ou o que restava deles inclinados para ela. Um cinto e fivela em bronze adornavam em luz o conjunto. Um recipiente ao lado, também em sobro, continha um pente de marfim, adornos com conchas, restos de dentes. Uma moeda em ouro cunhada num dos lados com uma efigie estava junto ao crânio.
Os indícios arduamente reconstituídos despertavam as maiores inquietações. Os especialistas, protegidos ou guardados pelos policias, abriram um tumulo. Contendo um tesouro. E não qualquer um. Era um tesouro de um chefe. Pela espada, pela pose cerimonial, pela moeda encontrados. Ferro e bronze comprovavam, simultaneamente, acesso aos metais do Atlântico Norte e Mediterrâneo. Estávamos perante um líder, talvez, um rei com acesso às duas culturas, às suas rotas e respetivos produtos e comércios.

Mas de onde? Um tumulo num barco? Sim. Os arqueólogos acrescentavam conhecimento. Pois os vikings e saxões no Norte da Europa assim o faziam. Noutras madeiras. Os costumes eram estranhos a Portugal, pois aí se depositavam restos mortais de reis e nobres ilustres. Por vezes queimados no mar. Outras enterrados. A ausência de coroa também não surpreende, pois os vikings, por exemplo, não coroavam seus reis e outras monarquias também não o faziam.
Mas as surpresas, insólitas, não se ficaram por aqui. Uma pedra em granito que os geólogos consultados afirmaram ser sienítico das serras de Monchique, após grande trabalho pericial de análise, continha os seguintes dizeres: “ Hic iacet primus inter pares Vincentius, magnus terrarum Algarbiae conquirens, qui in fine mundi sepeliri voluit, animam suam Creatori tradens”. Em tradução, o espanto não podia ser maior: “Aqui jaz o primeiro entre iguais, Vicente, grande conquistador das terras do Algarve e que quis ser sepultado no extremo do mundo entregando sua alma ao Criador”.
Mas, afinal, primus Vicente? Como? E não São Vicente? Só poderia ser um logro, uma falsificação, um embuste para enganar os tolinhos da PIDE e do arsenal científico do Estado Novo. Mas desenganaram-se todos: os testes de carbono 14 feitos para a datação dos restos mortais e dos vestigios arqueológicos confirmaram a autenticidade do tumulo: provinham ou do século VII ou VIII d.c.
Reconstituamos uma lenda histórica que é atribuida a São Vicente e ao cabo a que foi dado seu nome. Foi um diácono executado em Valencia, Espanha, no século IV d.c. pelos romanos tornando-se santo mártir. Seus restos mortais teriam sido transportados em segredo pelo mar até ao Cabo de São Vicente por fiéis cristãos para que não caissem nas mãos dos muçulmanos no século VIII d.c.
O cabo já tinha a designação de “Promontorium Sacrum” pelos romanos desde o século IV ou V.d.c., pelo que algo de sagrado ou espiritual já ali existiria, talvez, uma capela, na Alta Idade Média, segundo a tradição, guardada por corvos.
Que relação poderia ter esta descoberta com essa lenda? Porventura, nenhuma ou muito pouca. O chefe do século VII ou VIII seria visigodo, talvez viking, quem sabe arabe, um vizir. O latim não era prova decisiva. Podia ter sido resultado de uma aculturação. Um militar que procurou paz na sua alma naquele recanto do mundo em relação com algum Deus em que depositiva e acreditava na sua fé!

O maior mistério residia talvez na palavra Algarve. Teria relação com a palavra Garb, Ocidente traduzido do árabe? E que dizer do nome Vicente,que parece claramente provindo do latim e cristão? Vikings, cristãos, árabes? A maior confusão histórica possível, só resoluvel num mundo de entroncamentos, em especial, naqueles onde a força dos elementos do Mar, do Vento e da Natureza são tão grandes que quase nos transportam para uma dimensáo astral, quase cósmica.
Voltemos à lenda. Em 1173, tempo em que os cristãos ainda não tinham conquistado o Algarve, é atribuída uma operação de resgate às relíquias de São Vicente em Sagres, a pedido do primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques. Chegariam a Lisboa por mar com os corvos protetores. A história, é, depois, conhecida. Os corvos, símbolos de Lisboa e São Vicente, seu santo padroeiro.
Salazar, em 1967, era o chefe do governo português. Num regime autoritário, tinha perfil conservador, católico, nacionalista, mas também algo supersticioso e respeitador de lendas e tradições. Uma descoberta no Cabo de São Vicente só poderia ser examinada na Igreja de São Vicente, agora, acrescentada, de Fora, extramuros, mas também extra Cabo de São Vicente e Algarve.
As revelações dos cientistas causaram tanto espanto a Salazar que, exaltado, caiu da sua cadeira, ferindo-se na cabeça. Talvez aí tenha começado a sua decadência física acentuada em 1968 e culminada na sua morte em 1970. 1967, aqueles dias, conduzidos a uma data da revelação, foram o mais duro golpe instituído a Salazar e à convicção histórica do regime, ou seja, de Portugal iniciado como condado portucalense , Guimarães como seu berço e ainda como uma nação única e indivisível ou Estado-Nação mais antigo da Europa.
Afinal, o Algarve tinha, talvez, alguma forma de individualidade politica antes do Condado Portucalense. Composta de entroncamentos civilizacionais distintos. Onde algum chefe militar deu resposta localizada a alguma forma de ordem, segurança e justiça descentralizadas aproveitando as fraquezas de regimes mais centralizadores que não a poderiam impor. Não, não poderia ser. Salazar proibiria a revelação e faria dela segredo, de Estado, o mais bem guardado do Estado Novo.

O Algarve, sem se saber os seus limites territoriais precisos naquela época longínqua, continuava a ser um íman atractor que flexibilizava os costumes, desafiava barreiras e abria a região e o país ao turismo. Um desafio ao regime.
Outrossim o tumulo descoberto. Afinal, existiria um rei, talvez um chefe, o primeiro entre iguais num território considerado Algarve em tempos pré ou proto- muçulmanos. Seguramente antes da Reconquista dos seculos XII-XIII.
Talvez o local tenha sido deixado ao esquecimento, como terra deserta e selvagem pelos árabes, como rejeição ao que tinha acontecido antes. Era um sagrado e um segredo que não lhes convinha revelar. Um chefe local e entroncamentos civilizacionais não convinham também à dinâmica centralizadora e imperial do Califado de Córdova…
Nas falésias de Sagres e junto ao mar jaz um tumulo e uma ordem política. Não destruídos ou saqueados por superstição e respeito a um antigo chefe militar que ouviram falar. Sempre com a convicção profunda de que o mar os levaria e destruiria em segredo no seu fundo.
O seu grande erro foi a enorme resistência da madeira de sobro que endurece com a exposição ao mar. E a força das ondas naquele mar sagrado encavalitadas pelo Promontório. Não conheciam o contexto e frustraram-se seus intentos. O resultado foi o deposito do tumulo na falésia. E de todos os seus sagrados segredos. Até 1967.

Vicente poderá ser, assim, mais exatamente uma derivação de “vincere”, ou seja, ato de vencer ou conquistar no latim, uma simbologia guerreira. Ou do chefe vizir árabe combinado com as palavras vento ou Ocidente. Nenhuma viagem, como nenhum segredo, são definitivas. Mistérios continuam.
Faz mais sentido invocar o “sacrum” dos romanos e mantido posteriormente como uma exaltação de conquista junto dos limites, de aproximação ao fim do mundo conhecido, de um local altaneiro e sobranceiro exposto a todas as direções cardeais e ventos possíveis. Em suma, uma exaltação geográfica junto ao divino da Natureza, da sua Força e dos seus perigos.

Assim, algum rei, chefe ou representante de uma ordem política que queira estar próximo do poder da Natureza, como que a dizer, do poder de Deus, como seu fundamento, baseando-se nele, encontra no “sacrum” de Sagres sua melhor residência final para junto dele. O tumulo do rei Vicente encontra melhor respaldo nesta interpretação.

Assim, esta poderá ser uma história, uma lenda mitificada de um rei num reino, o do Algarve. Mas muitos mitos em relação a Portugal e a Lisboa, foram também construídos pela historiografia tradicional. Como a de São Vicente. Não será o Algarve caso único. Como também não o serão os vários segredos de um Estado Novo que, até hoje, ainda não são conhecidos. O tumulo do rei Vicente. A História que não revelada pelos poderes vigentes. Os segredos do Reino do Algarve, esses também, ainda estão muitos por descobrir.